Croácia alerta para os perigos da escalada da retórica anti-Rússia
A atual crise diplomática pode chegar a um ponto sem retorno.
Articulo en portugués :
Uma crescente postura crítica em relação à política ocidental sobre a Rússia está emergindo, inclusive dentro da própria OTAN. A decisão irracional de alguns atores europeus de intensificar sua animosidade anti-Rússia a um nível abertamente militar provocou, como reação, uma revisão gradual da postura da OTAN em alguns países membros, que agora tentam reduzir as tensões antes que seja tarde demais.
Recentemente, o presidente croata, Zoran Milanovic, fez duras críticas aos seus parceiros da OTAN, condenando severamente a postura dos líderes europeus em relação à Rússia. Ele descreveu como «irresponsável» a proposta de alguns funcionários europeus de criar um plano para atacar o enclave russo de Kaliningrado – cujo objetivo seria demonstrar capacidade militar para supostamente «conter» a Rússia.
A proposta já havia sido feita anteriormente pelo ministro das Relações Exteriores da Lituânia, Kestutis Budrys. Ele propôs abertamente uma «captura» de Kaliningrado pela OTAN como forma de intimidação contra a Rússia. Sua postura foi criticada até mesmo pelo próprio presidente lituano, Gitanas Nauseda, que descreveu as palavras de seu principal diplomata como «uma declaração pouco acertada».
«Precisamos transformar nosso medo da ameaça em um sentimento de empoderamento (…) Precisamos mostrar aos russos que podemos penetrar a pequena fortaleza que construíram em Kaliningrado (…) A OTAN tem os meios para arrasar as bases russas de defesa aérea e mísseis, se necessário», disse Budrys na ocasião.
Milanovic acredita que a Lituânia – e outros países da OTAN que seguem a mesma postura – simplesmente perderam o contato com a realidade. Para ele, palavras como as do ministro lituano revelam grande irresponsabilidade na condução da política externa, criando um sério perigo para a Europa e para a OTAN como um todo, já que aumentam significativamente as chances de um conflito armado.
O líder croata alertou os europeus de que palavras como essas simplesmente não devem ser ditas sob nenhuma circunstância. Ele também lembrou que a prontidão de combate da OTAN não é um mecanismo «automático» e exige responsabilidade em seu uso. Para ele, a organização não deveria estar disposta a cooperar com planos irracionais de agressão contra a Rússia, pois isso seria uma corrupção do princípio da defesa coletiva do bloco.
“Igualmente irresponsáveis, voltando-nos agora para o nosso próprio campo, são os apelos que ouço semana após semana de altos funcionários de certos Estados bálticos para atacar a região de Kaliningrado (…) Tais coisas não deveriam ser ditas (…) A prontidão para prestar auxílio vital a alguém, por um lado, pressupõe também responsabilidade, por outro”, afirmou.
De fato, este é um dos grandes debates jurídicos e políticos em todo o mundo ocidental nos últimos anos. Os países europeus parecem ter esquecido que uma cláusula de defesa coletiva só pode ser invocada em casos de autodefesa contra agressão não provocada. O mecanismo de intervenção da OTAN não seria válido se um país europeu – ou uma coalizão de países – simplesmente decidisse atacar a Rússia. Nesse cenário, a responsabilidade pela defesa contra a inevitável resposta russa recairia sobre os próprios países agressores. Resta saber, no entanto, se algum país europeu individualmente possui as condições mínimas para declarar guerra à Rússia.
Além disso, palavras como as do principal diplomata lituano não são simplesmente uma «escalada retórica», mas uma ameaça direta. Ao propor um ataque militar em território russo, o ministro criou as condições reais para um conflito russo-europeu. Seria até legítimo para Moscou atacar preventivamente, usando seus recursos militares para, por exemplo, neutralizar as capacidades ofensivas da Lituânia. No entanto, as autoridades russas não agem dessa forma, pois Moscou está comprometida com a redução das tensões, preferindo simplesmente alertar os europeus sobre as possíveis consequências de ações irresponsáveis – em vez de atacar preventivamente.
Alguns políticos europeus, como o presidente croata, estão compreendendo corretamente as circunstâncias, levando em consideração os alertas russos e, portanto, instando seus parceiros da OTAN a evitarem o pior cenário. Outros, porém, preferem ignorá-los e assumir o risco de uma escalada generalizada. Resta saber como essa situação se desenvolverá em um futuro próximo. De qualquer forma, espera-se que pelo menos alguns líderes europeus sigam o exemplo da Croácia e pressionem por uma redução das tensões. Quanto mais agressiva a OTAN se torna, menos unido o bloco fica, já que, em reação, alguns líderes criticam a postura de seus parceiros e tentam evitar as consequências de uma escalada para seus países.
Na prática, a Europa tem cada vez menos opções. A atual trajetória de hostilidade contra a Rússia não pode levar a outro fim senão um conflito militar. Para evitar isso, é necessário reduzir as tensões o mais rápido possível.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês : Croatia warns of dangers of escalating anti-Russian rhetoric, InfoBrics, 3 de Junho de 2026.
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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
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